Quase zero grau. Levantar da cama às cinco da manhã é um desafio quando se está hospedado em um confortável chalé aos fundos da parte alta do Parque Nacional de Itatiaia. Mas o clima aconchegante não desviará o foco do que foi tanto tempo aguardado: subir o sexto ponto mais alto do Brasil, o imponente Pico das Agulhas Negras.

Durante a madrugada na parte alta do parque de Itatiaia

Durante a madrugada na parte alta do parque de Itatiaia

Café da manhã reforçado, calorias nunca foram tão bem-vindas como agora. Mochila verificada, luvas, cordas, mosquetões, boldrié, botas apropriadas, kit de primeiros socorros, comida, água etc. Tudo pronto.

A pousada dos Lírios

A pousada dos Lírios

Do trajeto da Pousada dos Lírios até a entrada do parque somente veículos apropriados ou motoristas desprendidos fazem o percurso com tranquilidade. Os demais sofrem com a curta e íngreme estrada de terra e pedras por cerca de 10 quilômetros. Já na portaria, os guardas verificam a aptidão de cada um com um breve questionário e checam item a item do equipamento necessário. Tudo aprovado, segue-se o curso.

Um Suzuki na montanha

Um Suzuki na montanha

Com o veículo apropriado é possível seguir de carro até o conhecido abrigo Rebouças. O caminho é curto, porém, as pedras impedem que qualquer carro comum chegue. O abrigo, que se localiza num ponto estratégico no início da trilha, foi construído em conjunto com o exército do batalhão dos Agulhas Negras de Itatiaia, que fica na parte baixa do parque. Atualmente, o abrigo Rebouças encontra-se inativo, mas ainda é possível acampar ao seu redor para quem conseguir um dos dez espaços na concorrida agenda do parque.

Posto do Marcão

Posto do Marcão

Sair cedo para fazer a trilha é muito importante porque a montanha possui diversos pontos no trajeto que podem, ocasionalmente, atrasar a programação. Um destes pontos fica logo no início desta trilha, que apesar das enormes pedras colocadas pelo exército para auxiliar no caminho, é uma região de encharco que comumente fica alagada. E isso, além de atrasar o passeio, pode prejudicar toda a subida.
Até a chegada aos pés da montanha encontram-se algumas pontes pênsil, muito fotogênicas, e também um pequeno dique que acumula a pura água de uma das nascentes da montanha. Ficar atento à sinalização é essencial. Em alguns trechos há bifurcações que têm como destino final diferentes rotas de subida, com maior ou menor grau dificuldade, e também outros locais, como a cachoeira Aiuruoca, por exemplo. Se perder na região não é uma boa ideia, pois o frio chega intenso a noite e mesmo a rota mais “simples” requer equipamento e condutores capacitados.

Trilha do Agulhas Negras

Trilha do Agulhas Negras

De cara, a subida assusta. A primeira parte já parece impossível de superar com facilidade. É preciso subir um paredão de rochas escuras com o apoio dos vincos e das mãos, pois o vento é muito forte. Íngreme e longa, esta subida requer calma, foco e cuidado em cada passo.
Na sequência, a subida pelos vincos é interrompida por um trajeto bem mais complicado. Neste ponto, o mais experiente faz uma “escalada guiada”, onde ele avança por cima de uma pedra utilizando os grampos já instalados no local. Estes pontos de escalada guiada, ou ancoragem, são muito comuns nos locais mais visitados. Em seguida este escalador desce uma corda fixa para os demais também subirem. Dependendo do grupo, também é possível que os outros escaladores sejam puxados pelo primeiro a subir.

Eu em um trecho da trilha.

Eu em um trecho da trilha.

O visual deste ponto é impressionante. Mal começa a subida e a montanha já presenteia com um vale escondido a cada metro superado. Deste ponto adiante os vincos e a inclinação da rocha ficam mais profundos demarcando, claramente, a entrada no Agulhas Negras. O nome se dá justamente pelas rochas escuras, que com seus enormes vincos verticais dão a impressão de serem agulhas negras fincadas no solo quando vistas de longe.
A dificuldade cresce na trilha de grandes rochas que leva até quase o fim do trecho das agulhas. Mais à frente é preciso subir por outra trilha que fica em uma fenda estreita e alta até encontrar uma pedra grande e plana. Dali, o visual maravilhoso dá acesso aos dois lados da montanha. No entanto, ainda não é o topo.
O próximo desafio é subir à espreita de uma rocha. Qualquer deslize e a queda será grandiosa. Ainda assim é comum ver “aventureiros” irresponsáveis atravessando sem qualquer equipamento.

Trilha do Agulhas Negras

Trilha do Agulhas Negras

A emoção toma conta. Falta pouco até o ápice da montanha. Mais um caminho de rochas grandes e ali está o cume do Agulhas Negras. Desafio concluído! Desta vez, por mim e mais seis amigos aventureiros. Agora somos parte de um seleto grupo pessoas que já esteve em um dos dez pontos mais altos do Brasil. Seus imponentes 2794 metros de altitude dão notoriedade e documentam sua importância em nossa geografia. Porém, é a peculiaridade e beleza desta região que engrandecem a experiência de explorá-la.

Trilha do Couto

Trilha do Couto

Pode chorar, pode admirar, pode agradecer, é momento de celebrar! E comer rapidamente o lanche para começar a voltar, antes que o tempo mude. Subir foi um desafio no seco, mas descer centenas de metros em rochas íngremes e molhadas é o tipo de coisa que verdadeiros aventureiros querem evitar.

Cume dos Agulhas Negras

Cume dos Agulhas Negras

A escalada, ao contrário do que muitos pensam, não é estar 100% do tempo ancorado em uma parede de pedra. É determinar um ponto desafiador e fazer o que for necessário para chegar ao cume e voltar com segurança.
De todas as montanhas que já subi, esta é uma das que mais me encantam por sua imponência, beleza e aprendizado. Do seu ponto mais alto somos lembrados a todo instante o quanto a natureza e nossos limites precisam ser respeitados. É a montanha que controla nossa escalada, não nós.

Maciço do Agulhas Negras

Maciço do Agulhas Negras

Revisão de texto: Lais Tellini (MTB 65307SP)